Carl Jung e Tarô


Mary Greer, a taróloga norte-americana que esteve recentemente no Brasil durante o Tarot Masters, trouxe em 2008, em seu blog, um texto sobre Jung e o Tarô, esclarecendo uma dúvida que eu sempre tivera: “Jung realmente conhecia o tarô? Ou as pessoas aplicavam seus conhecimentos às cartas apenas por associação?

Segundo alguns extratos que ela recolheu e transcreveu, Carl Jung de fato chegou a lidar com os arcanos, embora não tivesse tido a oportunidade de aprofundar seus estudos e, quem sabe, trazer novas luzes sobre o assunto.

Trago aqui os trechos que ela postou, traduzidos livremente:

Vejam o que Jung escreveu em 16 de setembro de 1930 a uma tal de Sra. Eckstein. Ressalto que, infelizmente, algumas informações que ele tinha a respeito do Tarô eram historicamente incorretas:

“Sim, eu sei do Tarô. Trata-se, tanto quanto sei, do baralho de cartas originalmente usados ​​pelos ciganos espanhóis, as mais antigas cartas historicamente conhecidas. Elas ainda são usadas ​​para fins divinatórios. “

Já em 1 de março de 1933, Carl Jung falou sobre o Tarô durante um seminário sobre imaginação ativa. Neste ponto, ele já sabia um pouco mais sobre o jogo.

“Outro estranho campo de experiência oculta em que a hermafrodita aparece é o Tarô. Que é um conjunto de cartas de jogar, como foram originalmente utilizadas pelos ciganos. Há exemplares espanhóis, se bem me lembro, tão antigos quanto o século XV. Estas cartas são realmente a origem do nosso baralho de cartas, em que o vermelho e o preto simbolizam os opostos, e a divisão de quatro – paus, espadas, diamantes e corações, também pertence ao simbolismo de individuação. São imagens psicológicas, símbolos com que se joga, como o inconsciente parece brincar com o seu conteúdo. Eles combinam de determinadas maneiras, e as diferentes combinações correspondem ao desenvolvimento lúdico de eventos na história da humanidade. As cartas originais do Tarô consistem das cartas comuns, o rei, a rainha, o cavaleiro, o ás, etc, somente os números são um pouco diferentes e, além disso, existem 21 cartas sobre as quais existem símbolos, ou imagens de situações simbólicas. Por exemplo, o símbolo do sol, ou o símbolo do homem pendurado pelos pés, ou a torre atingida por um raio, ou a roda da fortuna, e assim por diante. São uma espécie de idéias arquetípicas, de natureza diferenciada, que se misturam com os constituintes normais do fluxo do inconsciente e, portanto, é aplicável para um método intuitivo que tem o objetivo de compreender o fluxo da vida, possivelmente até mesmo prever eventos futuros , em todos os eventos que se presta para a leitura das condições do momento presente. É desse modo, análogo ao I Ching , o método de adivinhação chinês que permite, pelo menos, uma leitura do estado atual. Você vê, o homem sempre sentiu a necessidade de encontrar um acesso através do inconsciente para o significado de uma condição real, porque há uma espécie de correspondência ou uma semelhança entre a condição predominante e da condição do inconsciente coletivo.

“Agora no Tarô há uma figura hermafrodita chamada diabo. Isso seria na alquimia o ouro. Em outras palavras, tal tentativa como a união de opostos aparece à mentalidade cristã como algo mal, diabólico, que não é permitido, algo pertencente a magia negra. “

[De Visions: Notas do Seminário dado em 1930-1934 por CG Jung , editado por Claire Douglas. Vol. 2. (Princeton NJ, Princeton University Press, Bollingen Series XCIX, 1997), p. 923.]

Em Os Arquétipos do Inconsciente Coletivo (. CW, Vol. 9:01, parágrafo 81), Jung escreveu:

“Se alguém quiser formar uma imagem do processo simbólico, a série de imagens encontradas na alquimia são bons exemplos. Também parece como se o conjunto de imagens nas cartas de tarô fossem distantes descendentes dos arquétipos de transformação, opinião que foi confirmada por mim em uma palestra muito esclarecedora pelo professor [Rudolph] Bernoulli. O processo simbólico é uma experiência em imagens e de imagens. Seu desenvolvimento mostra geralmente um enantiodromian * estrutura como o texto do I Ching, e assim apresenta um ritmo de negativo e positivo, perda e ganho, claro e escuro. “ [* um termo grego usado por Jung para significar “coisas virando em seu próprio oposto. ‘]

Ainda segundo Mary, em 1950, Jung teria solicitado que cada um dos quatro membros do seu Clube de Psicologia utilizasse um método intuitivo para explorar. Hanni Binder escolheu o Tarô, optando pelo baralho de Marselha. Infelizmente o grupo se desfez em 1954.

Assim, em 9 de fevereiro de 1960, um pouco antes de falecer, Jung teria mostrado seu descontentamento por não ter conseguido levar adiante os novos experimentos. Na carta ao Sr. AD Cornell, ele diz:

“Sob certas condições, é possível experimentar com arquétipos, como a minha experiência astrológica tem mostrado. Na verdade, tinha começado tais experiências no Instituto CG Jung de Zurique, usando os intuitivos historicamente conhecidos métodos de sincronicidade (astrologia, geomancia, cartas de tarô, e o I Ching ). Mas nós tínhamos muito poucos colegas de trabalho e poucos meios, por isso não poderia continuar e tive que parar. “

Mary conclui que, apesar do tarô não ter sido um foco de Jung, ele percebeu que a imagens arquetípicas que ele trazia eram semelhantes aos dos mitos, sonhos e da alquimia que já estudara. Portanto, acreditava que as pessoas poderiam usar as cartas como um método intuitivo para se compreender o inconsciente coletivo e também para predizer o futuro.

Fonte: http://marygreer.wordpress.com/2008/03/31/carl-jung-and-tarot/

Bibliografia recomendada: 

O tarô e o autoconhecimento, de Mary Steiner-Geringer

Jung e o Tarô, de Sallie Nichols

O Tarô e Individuação, da Dra. Irene Gad, baseado no trabalho de Mary Steiner-Geringer

Tarot Revelations, Joseph Campbell
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Sobre Vanessa Mazza

Graduada em Comunicação Multimídia pela UMESP, já trabalhei em emissoras de TV, produtoras de vídeo e cinema, além de ter sido assessora de imprensa de um órgão do Governo do Estado de São Paulo. De 2008 a 2011 me envolvi com a área de internet do Grupo Corrêa Neves de Comunicação em Franca, cidade do interior paulista para a qual me mudei para ter mais qualidade de vida e bem-estar. Dessa forma, pude me dedicar mais intensamente ao tarô, com o qual tenho uma vivência de 17 anos e mais de 5 mil atendimentos, e outros assuntos holísticos, escrevendo artigos e realizando consultas. Atualmente resido em Petrópolis, no Rio de Janeiro, tendo assumido completamente minha profissão de taróloga – que passou a ser reconhecida pelo ministério do trabalho desde 2002 – e atendo preferencialmente por chat e email.

Publicado em 09/01/2012, em Artigos, Curiosidades, Tarô e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Ótima pesquisa! Muito bacana! Aproveito para convidá-la a conhecer meu blog: http://pedrohenriquepost.wordpress.com.

    abraços

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  1. Pingback: Resenha Jung e o Tarô – Sallie Nichols: Parte I (O Louco) | Tarolando

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